A Debutante

Eu tinha 22 pra 23 anos e uma cabeça de 16. Medo de abrir a boca, de ser observada, de gaguejar no meio do discurso, de fraquejar. Eu não podia falhar àquela altura do campeonato, não diante de uma oportunidade daquelas, era como se tudo dependesse de mim pra que continuar fosse possível. E eu fui carregando um armário de oito portas sobre os ombros, vestindo aquela calça preta de promoção, camisa branca de botão, sapatos fechados, tudo comprado um dia antes em uma loja de departamento qualquer, afinal, esse estilo não fazia parte de mim. Eu andava pra cima e pra baixo de jeans saint tropez (quem lembra?), camiseta baby look, sandália de surfista e uma famigerada mochila laranja que estava comigo em todas as ocasiões. Mas nesse dia, não. E eu acordei cedinho, peguei três ônibus, caminhei quatro quarteirões, entrei naquele empresarial suada e nervosa, sentei, respondi pouco mais que quatro perguntas e ali mesmo já soube que tinha dado certo. Eu havia sido a escolhida.

Hoje fazem quinze anos que eu comecei a trabalhar na Philips e apesar de lembrar detalhadamente da entrevista e do meu primeiro dia de trabalho, foram tantos os desafios enfrentados nessa jornada que mal me reconheço nesse corpo de hoje. A Philips me deu as melhores e mais profundas oportunidades de crescimento pessoal e profissional a que me submeti. Foram cinco anos em Recife, dez anos em São Paulo, um punhado de amigos conquistados pelo caminho (até um marido… rs), um sem-número de gestores que passaram pela minha vida com uma única missão: a de me transformar hoje em alguém melhor que ontem. Nada que conquistei até hoje seria possível se a Philips não tivesse entrado na minha vida.

Ainda há muito de mim daquela menina que mal sabia o que falar na sua primeira entrevista de emprego, ela ainda gagueja quando fica nervosa, se cala quando se sente observada e ainda carrega nos ombros aquele armário de responsabilidades que foi enchendo a cada ano que passou. Não sei quantas pessoas ainda tem o privilégio de debutar em uma empresa, não diante dessa dinâmica a que estamos inseridos nos dias de hoje. Mas o meu segredo é bem simples: trabalhe com paixão, respeite as pessoas, valorize seus dias, reconheça seus erros, peça ajuda e aprenda, aprenda, aprenda, com a sua diretora, com o seu colaborador, com a moça da limpeza. O resto vem.

Profundidade

Fiquei sabendo que um conhecido se separou. Mais um na lista de tantos em 2018. Assusta saber que relacionamentos tão próximos de você e que pareciam tão livres disso se dissiparam até o fim. Lembro anos atrás quando um primo se separou e eu só pensava na tristeza das coisas compradas pra compor um lar, largados no fundo de uma caixa qualquer depois que o caminhão vem e destrói o que era o palco de uma família. Sei lá, acho que não se fazem mais relacionamentos como antigamente e parece que os novos amores não foram feitos pra durar. Não 43 anos, como dura o casamento dos meus pais. E não é por falta de amor não, acho que a culpa disso é das mulheres e tudo de maravilhoso que começou a surgir nas nossas vidas depois que meia dúzia de sutiãs foram queimados em uma praça dessas. A gente não precisa mais se submeter a um relacionamento que não nos faz bem. A gente não depende mais financeiramente dos nossos maridos e por isso podemos sim, chutar o balde e continuar a viver com 40, 50, 60 anos. O que me choca é a volatilidade que isso causou, como ficou fácil jogar tudo pro alto por qualquer coisa. Falta paciência, insistência, resiliência. Casar dá trabalho mesmo, disso não tenho dúvida. E a preguiça de cuidar, de ceder, de abrir mão, de deixar pra lá, de esticar a mão, de tentar de novo e mais uma vez, enquanto houver amor? Pra mim enquanto há respeito e amor, tudo pode ser consertado. Vai dar trabalho, eu sei. Mas e a recompensa de envelhecer ao lado de alguém que te conhece como ninguém mais!? Eu ainda sonho.

Dia desses li sobre profundidade: “qualidade que não se restringe ao aspecto superficial das coisas, mas vai à sua essência.” A vida está cheia de oportunidades todos os dias. Gente querendo te pegar, não vai faltar. Grama verdinha do vizinho então, nem se fala. Mas quem é que tem a sorte de ter alguém que ama o que há de mais profundo em você, lá na sua essência? Que te ama produzida pra um festão ou te abraça naquele dia em que nem você se suporta? Amar o nosso melhor é fácil. Mas e o pior de você? Será que dá?

Eu acredito.

Pior do dia: Queixa da vó sobre o comportamento do meu filho de férias na casa dela. Dói.
Melhor do dia: De volta à academia, sei lá quantos meses depois. #projetoverão2020

Starting Over

Quando eu tinha uns 20 e poucos anos eu tinha um blog famosinho. Naquela época, eu era uma semi celebridade nesse (quase) extinto mundo. Eu escrevia quase todos os dias as minhas agruras de adolescência e meus posts mais famosos eram os que haviam mais tristeza despejada. Acho que eu era mais feliz quando eu era triste. Na verdade esse paradoxo mais tem a ver com a minha necessidade eterna em problematizar o mundo e romantizar tudo que me parecesse importante. Demorou, mas eu aprendi anos depois na terapia, que eu não precisava desse sofrimento todo pra ser feliz, que eu podia simplesmente agradecer à vida pelos meus planos terem se concretizado até maiores do que eu havia sonhado. Mas a velha Vanessa sempre me cutuca por dentro e dá um jeitinho de, mais uma vez, problematizar o mundo e buscar romance nas pequenas coisas do dia a dia. Então vamos lá, eis que estou aqui atendendo esse chamado interno de reexercitar a escrita diária, como fazia anos atrás. Agora os desafios são outros, não tem mais amor perdido ou não correspondido, não tem mais desespero pra se manter ativa social e emocionalmente, não tem mais a ansiedade das grandes decisões que essa fase envolve. Alguns muitos anos depois me vejo aqui, à beira dos 40 anos, me equilibrando entre esposa, mãe, profissional, ser humano. Entre ser pra si e estar pros outros. Acho que estou pronta pra me redescobrir como mulher e dividir um pouco dessa jornada com as palavras. Transformar a dor da mudança em poesia.

E tem melhor dia do ano pra começar um blog se não o primeiro dia?

Pior do Dia: A cara feia do meu marido quando me recusei a ir naquele churrasco de família.
Melhor do Dia: O pãozinho de leite saindo do forno que fiz pela primeira vez. E o blog.